21-08-2017

O Opinião

CMO

Carlos Miguel Oliveira

Presidente do Concelho Executivo da CCILSA  
CEO da Leadership Business Consulting

 


Prioridade Geoestratégica para a África do Sul

A África do Sul tem uma relevância múltipla para Portugal, como mercado de destino (maior economia de África), como porta para o continente africano, como membro líder da SADC, como investidor numa porta para a Europa e como país com forte história e comunidade portuguesa.

No atual momento geopolítico mundial, de instabilidade e de realinhamento de parcerias mundiais, Portugal deverá eleger a África do Sul como uma prioridade geoestratégica, adotando um conjunto de ações concretas que passam por duas dimensões - proximidade política e promoção da relação económica - e duas ações concretas - modelo de rentabilização de uma ligação aérea direta Lisboa-Joanesburgo e facilitação dos vistos de entrada e trabalho em Portugal.

 

1. Uma Nova Fase Multipolar no Relacionamento Externo

Portugal tem de olhar bem mais para fora do que no passado, para reforçar a sua vitalidade económica e financeira. Internamente, o contexto económico força as empresas portuguesas a aumentarem significativamente o nível das exportações e a falta de capital e o elevado endividamento do país impõem um grande esforço de atração do investimento externo.

As dinâmicas dos anteriores ciclos externos alteraram-se (1). Adicionalmente a conjuntura internacional é também bem mais volátil (2). Neste novo contexto, com quem deve Portugal reforçar os seus relacionamentos externos nos próximos anos?

Neste quadro mundial mais fluído, de novos desafios, mas também de novas oportunidades, Portugal deverá adotar uma estratégia multipolar, beneficiando da sua tradição humanista e de diplomacia de pontes com várias culturas. Mantendo o alicerce da União Europeia, Portugal deverá estabelecer de forma ágil e evolutiva relacionamentos focados conforme as oportunidades geoestratégicas vão surgindo. Neste desafio multipolar, a África do Sul deve ser um país prioritário.

 

2. A Relevância da África do Sul como Mercado Destino

A África do Sul é a maior economia de África (2), com um PIB uma vez e meio o PIB de Portugal, a maior classe média e de crescimento mais rápido do continente africano, a economia mais sofisticada e diversificada do continente africano, com maior estabilidade macroeconómica e contratual e um posicionamento líder em África no índice “Doing Business”.

O poder político está sobre grande pressão das populações para proporcionar resultados económicos e sociais mais rápidos. Com um endividamento externo de apenas cerca de 50% do PIB o país tem um grande plano de investimentos em infraestruturas e ambições e planos ambiciosos nas mais diversas áreas. O governo tem adotado uma política de maior intervenção do setor público na economia, mas a sua eficácia precisa de melhorar significativamente.

A experiência de Portugal na modernização da máquina do Estado, das empresas públicas e dos modelos de serviços social e de saúde nos últimos 25 anos é de enorme relevância pela proximidade da experiência (viemos de níveis baixos) e pelo sucesso obtido. Adicionalmente, o nosso know-how e sistemas de governação eletrónica são de uma enorme relevância para os desafios atuais do Estado sul-africano.

A economia sul-africana está sobre grande pressão para crescer e dar emprego a uma população muito jovem e com enormes aspirações. No entanto, as suas cadeias de valor são frágeis e precisam de ser grandemente reforçadas. A economia precisa de um reforço de inovação por forma a fazer face aos novos desafios tecnológicos, de outra forma irá perder competitividade.

O know-how português e as empresas portuguesas são o parceiro ideal para as necessidades de crescimento da economia sul-africana  e a modernização do Estado e das empresas públicas, por três motivos. Em primeiro lugar, as empresas portuguesas têm hoje em dia um elevado grau de inovação e de competitividade (proposta de valor económico) em quase todos os setores económicos, em resultado de elevados e continuados investimentos vindos dos fundos comunitários, que são críticos para reforçar as cadeias de valor produtivas, de distribuição e de exportação da economia sul-africana e para aceleração da inovação e do know-how endógeno. Em segundo lugar, para além da sua mais valia intrínseca, este know-how tem a vantagem de estar associado a uma forte experiência africana por parte das empresas portuguesas, o que torna as suas soluções mais adaptáveis à economia sul-africana. Em terceiro lugar, as empresas portuguesas, pela sua dimensão, cultura operacional e estruturas acionistas, têm uma maior flexibilidade para estabelecimento de parcerias com parceiros e empresas sul-africanas que as empresas de outros países. Neste contexto, a política de “Black Economic Empowerment”, independentemente de ser ou não ser eficaz e benéfica para a economia sul-africana, é uma excelente oportunidade para as empresas portuguesas entrarem num mercado competitivo e de outra forma mais fechado, ao facilitar a abertura do mercado e ao agregar competências de contexto e de relacionamento. Deste modo, estas parcerias, se bem montadas, são benéficas para ambos os lados: por um lado, apetrecham os challengers locais com know-how e capacidade operacional para desafiarem os players dominantes; por outro lado, possibilitam às empresas portuguesas uma entrada mais apoiada no mercado.

A economia sul-africana oferece mercados de vários níveis de sofisticação, de maior maturidade e competitividade, nas grandes cidades, e de menor sofisticação, nas zonas rurais, oferecendo oportunidades para empresas de diversos tipos de oferta e sofisticação. As nove províncias do país são assim nove mercados diferentes com oportunidades distintas.

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3. A Relevância da África do Sul como Porta para o Continente Africano

Portugal tem facilidade de entrada direta no mercado africano, nomeadamente nos mercados de língua portuguesa. No entanto, a força da economia sul-africana no continente e a crescente integração da economia africana tornam a África do Sul um parceiro importante no reforço da capacidade das empresas portuguesas em África.

Muitas empresas sul-africanas operam em todo o continente africano. Fazer negócio com estas empresas é, em muitos casos, uma oportunidade para vir a servir vários países africanos a seguir.

Adicionalmente, a África do Sul tem sido sede da maior parte das empresas internacionais que tem por estratégia servir todo o continente, porque oferece condições de vida, de estabilidade contratual e de capacidade operacional superior a outras bases.

Olhando para o futuro, os desafios de crescimento da economia sul-africana vão forçá-la a olhar mais para África do que no passado. Uma certa sobranceria sul-africana em relação aos restantes países africanos tem limitado a sua atenção ao mercado africano e deixado espaço para a China, que tem assumido um papel que poderia ter sido assumido por uma África do Sul mais estruturada para servir o mercado africano. Neste desafio de maior aposta no seu próprio continente as empresas sul-africanas irão precisar de parceiros que lhes tragam o know-how e capacidade que por vezes lhe falha até no mercado interno.

 

4. A Relevância da África do Sul como Economia Líder da SADC

A SADC - Southern Africa Development Community é um projeto de maior integração económica do sub-continente, que trará múltiplos benefícios para todos os países participantes. O processo de integração tem sido mais lento porque os restantes países africanos receiam uma África do Sul que sejam demasiado dominante, uma “Alemanha africana”. No entanto, as forças de integração económica vão acontecendo através das trocas económicas apesar da maior ou menor rapidez das políticas dos Estados membros.

Neste contexto, a maior integração das economias de Angola e de Moçambique com a economia sul-africana representa uma ameaça e uma oportunidade para as empresas portuguesas. Um maior alinhamento e cooperação estratégico entre todos é o caminho win-win que deve ser seguido e que sugere uma maior proximidade económica entre Portugal e a África do Sul.

 

5. A Relevância da África do Sul como Investidor num Porta para a Europa

A África do Sul tem acesso direto ao mercado europeu, pela dimensão da sua economia, pelos laços históricos com países como o Reino Unido e a Holanda.

No entanto, a dimensão, as características e as necessidades de capital da economia portuguesa podem oferecer oportunidades de entrada bem atraentes para as empresas sul-africanas.

O preço de entrada no mercado português é inferior, com custos de funcionamento mais baixos. A abertura e os incentivos ao investimento externo são grandes. As características do mercado português são atraentes em termos de dimensão de mercado e abertura dos consumidores a inovação. A qualidade de vida é elevada (terceiro país mais pacífico do mundo, clima ameno, serviços sociais de boa qualidade). As nossas universidades são reconhecidas internacionalmente, têm estado sempre a subir no ranking mundial e muitas delas lecionam em inglês.

É significativo o facto dos sul-africanos terem sido os terceiros maiores beneficiários de vistos gold nos últimos 12 meses.

 

6. A Importância dos Laços Históricos e da Comunidade Portuguesa

A África do Sul tem laços históricos fortes com os portugueses, desde a travessia do cabo da Boa Esperança por Bartolomeu Dias, pelo que Portugal e os portugueses não são estranhos na África do Sul. Adicionalmente, os sul-africanos de origem portuguesa, os luso sul-africanos estão bem implantados e inseridos na economia, em diversos setores e em cargos de relevo. Ainda está por explorar o potencial de parcerias entre Portugal e estes luso sul-africanos.

Ações a Desenvolver

 

7. Proximidade Política

Portugal não tem estado presente em termos de proximidade política com a África do Sul, o que é diferente de apoiar o governo do dia. É preciso intensificar as visitas e protocolos de colaboração entre ministérios e entidades, visitas de Estado e de alto nível, por forma a criar maior ligação entre os dois países e criar um contexto propício para um alinhamento de interesses em várias áreas económicas e nas instituições multilaterais.

 

8. Promoção da Relação Económica

A África do Sul desconhece o valor para si do Portugal Inovador e Tecnológico, a crescente sofisticação da economia portuguesa, a agilidade e adaptabilidade dos empresários e gestores portugueses para vencerem nos contextos mais diversos.

As entidades portuguesas deviam promover e apoiar a imagem do Portugal inovador, tecnológico e de start-ups por forma a criar mais abertura ao negócio com empresas portuguesas. Pouco é ainda feito.

As empresas portuguesas deveriam estudar melhor e visitar mais vezes o mercado por forma a identificarem e aproveitarem as oportunidades que só elas podem fazer por si. Maior presença, irá significar mais negócio. Num mercado sofisticado, mas de elevado potencial, como o da África do Sul, é preciso apostar em diferenciadores claros, de inovação e tecnologia, que as empresas portuguesas têm. Para este efeito, a CCILSA – Câmara de Comércio e Indústria Luso Sul-Africana tem um conjunto de iniciativas e disponibiliza verbas do Compete no âmbito de um programa de investimento de 482.000 euros, que se esgota em 31 de Dezembro de 2017 (mais informação no site www.ccilsa.org).

 

9. Ligação Aérea Direta entre Lisboa e Joanesburgo

Já houve uma ligação bastante procurada e lucrativa entre Joanesburgo e Lisboa. A forma como a TAP perdeu este mercado pertence ao passado. Neste momento é essencial estudar a melhor forma de se conseguir estabelecer uma ligação que seja lucrativa para as companhias aéreas, tendo em consideração o efeito positivo que uma boa oferta tem na procura. Do lado da África do Sul, uma ligação direta iria aumentar o turismo de origem portuguesa e tornar o mercado mais atrativo a investimento e a servir de base para operações em África a partir do mercado africano. Do lado de Portugal, iria resultar numa maior intensidade de utilização da ligação direta pelos luso sul-africanos e maior atratividade para a presença de sul-africanos em Portugal, para negócios, para férias ou em trânsito.

 

10. Facilitação de Vistos para Portugal

Os portugueses não precisam de visto para visitas de lazer ou empresariais na África do Sul. A obtenção de vistos de trabalho é um bocado mais complicado, mas dada a carência de expertise na África do Sul, acaba por ser importante para a economia sul africana conceder estes vistos.

Seria importante, dentro dos condicionalismos da União Europeia e do Espaço Schengen, que Portugal facilitasse ao máximo o visto para cidadãos sul-africanos, ou pelo menos fosse mais expedito na tramitação administrativa.

Em resumo, existem potenciais benefícios mútuos de maior cooperação económica entre Portugal e a África do Sul. Do lado português esses benefícios são claros. Mas para realizar esses benefícios é preciso mais iniciativa do lado das entidades oficiais e das empresas portuguesas.

 

 

Carlos Miguel Oliveira

Presidente do Conselho Executivo da CCILSA

CEO da Leadership Business Consulting

 

(1) Os Ciclos Externos de Portugal

Desde o 25 de Abril, o foco externo de Portugal tem passado por vários ciclos. De 1974 a 1984, Portugal teve o ciclo da turbulência e indefinição, marcado pelo trauma da descolonização, a instabilidade política interna e o reajuste do regime, que colocou o país num limbo em termos de relacionamento externo. Felizmente, os que consideravam que Portugal deveria ser “orgulhosamente” parte dos países “não-alinhados” foram derrotados pelos que apostaram no alinhamento europeu.

De 1984 a 2004, Portugal teve o ciclo europeu, marcado pela integração europeia e pelo processo de modernização mais acelerado da sua história.

De 2004 a 2014, Portugal complementou o ciclo europeu com o ciclo lusófono, com uma forte reaproximação económica com os países africanos de língua portuguesa.

De 1974 até hoje, a ligação atlântica, de relevância estratégica para Portugal, esteve sempre presente (nomeadamente com o Brasil no final dos anos 90), mas nunca se assumiu na plenitude dada a centralidade e a intensidade da integração europeia e atratividade das economias africanas mais recentemente.

(2) Quadro Internacional mais Volátil

A atual conjuntura internacional tende a ser mais volátil, marcada pelo isolacionismo Trumpetista, por uma China com crescente integração nos circuitos internacionais, por uma Europa focada na sua coesão, por uma Rússia muito mais interventiva no xadrez do poder global e por vários focos de instabilidade mundial, nomeadamente nos países árabes. Adicionalmente, a evolução tecnológica da Sociedade da Informação tende a mudar a forma como se produz, consome e vive e também os relacionamentos sociais, económicos e políticos.

 

Câmara do Comércio e Indústria Luso-Sul Africana

Fundada em 1980
Sem fins Lucrativos
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